APRESENTAÇÃO

 

A constituição da AILP–Associação Internacional de Lingüística do Português, a partir da ação conjunta da APL–Associação Portuguesa de Lingüística e da ABRALIN–Associação Brasileira de Lingüística a que se associaram alguns investigadores de Moçambique, Angola, Cabo Verde e Guiné, é a demonstração inequívoca do interesse científico e transnacional no estudo, na utilização comum e na divulgação da Língua Portuguesa.

As mudanças operadas no Português, ao longo da história da língua e das suas variedades, sustentam os contrastes relativamente às outras línguas românicas, razão por que o Português se mantém, no limiar do século, uma língua autônoma, a sexta língua mais utilizada no mundo, por mais que aos olhos desconhecedores de agentes estrangeiros de políticas lingüísticas apareça, na sua forma escrita, como  susceptível de poder ‘passar’ por variedade hispânica do castelhano.

Todos os dias nos confrontamos com documentos supostamente ‘escritos’ em Português ou supostamente ‘traduzidos’ para Português, das folhas de circulação oficial às instruções para a montagem e funcionamento de objetos de uso doméstico, que fazem pasmar o falante mais permissivo e perder a paciência ao sujeito mais tolerante. A verdade é que não existe, ou se existe não se faz sentir, uma instituição que assuma, de fato, a defesa da língua portuguesa, nomeadamente no plano internacional, intervindo no sentido de assegurar o reconhecimento que é devido a uma grande língua de comunicação a nível mundial.

É provável que a aparente despromoção do Português, nomeadamente ao deixar de ser considerado como língua oficial de algumas organizações internacionais, se deva conjunturalmente à falta de formação lingüística dos agentes políticos, ao desconhecimento da língua num universo eminentemente constituído por leitores e falantes de línguas internacionalmente tidas como maioritárias, ou à reconhecida escassez de informação sobre o Português e de materiais para o seu ensino. Tratando-se, no entanto, de fatores conjunturais, é natural que uma atenção especialmente dirigida venha a modificar o atual estado de coisas, mudando condições de acesso ao conhecimento, mudando políticas e mudando práticas.

A Língua Portuguesa constitui um magnífico objeto de estudo, tipologicamente particular, mesmo no interior das línguas românicas, tornando-se especialmente interessante a observação das suas idiossincrasias. Da partilha transnacional de sentidos à produtividade literária, todos sentimos que É BOM FALAR PORTUGUÊS.

Nas suas variedades nacionais, a Língua Portuguesa apresenta variações de parâmetros fonéticos, fonológicos e sintáticos, elas próprias definidoras de idiossincrasias constitutivas do conhecimento lingüístico interiorizado pelos falantes dos países que as utilizam. A diversidade lexical é reconhecidamente fonte de criatividade e garante da multiplicidade de sentidos.

Ao contrário do que alguns possam ter querido mostrar, a variação fonética, lexical, fonológica, sintática, semântica ou pragmática não só não impede a comunicação entre os falantes das diversas nacionalidades como a produção lingüística, em qualquer das variedades, é encarada como fator de reconhecimento entre falantes, já que dispõem de mecanismos comuns de interpretação gramatical, mesmo que da sua utilização ressalte a construção de sentidos diferentes.

Conscientes de faltas que é urgente suprimir, os promotores da AILP têm como objetivos principais o estudo e a divulgação da Língua Portuguesa nos diversos contextos internacionais; a constituição de um banco transnacional de dados orais e escritos das variedades nacionais do Português; a organização de uma fonte bibliográfica sobre o Português tão rica quanto possível, a publicação de estudos e do Boletim da AILP, a manutenção de informação atualizada nesta página da internet.